Glossário de retórica

Termos para os três apelos, os cinco cânones e a estrutura clássica do discurso.

  • Retórica: a faculdade de observar, em qualquer situação dada, os meios de persuasão disponíveis. Não é ornamento nem manipulação — é diagnóstico deliberado do que uma audiência específica precisa para decidir.
  • Ethos: apelo que vem do caráter e da credibilidade de quem fala — por que essa pessoa merece crédito neste assunto, aqui e agora.
  • Pathos: apelo que vem do estado emocional despertado em quem ouve. É legítimo quando aponta para uma consequência real do argumento já sustentado por logos; é manipulação quando substitui a prova.
  • Logos: apelo que vem do próprio argumento — a prova lógica contida no discurso, feita de afirmações que resistem à pergunta "como você sabe disso?".
  • Phronesis: um dos três componentes do ethos — bom senso, a competência real sobre o assunto. Sua ausência gera opinião sincera, mas equivocada.
  • Arete: um dos três componentes do ethos — caráter, dizer o que realmente se pensa. Sua ausência gera opinião correta, mas distorcida por interesse.
  • Eunoia: um dos três componentes do ethos — boa vontade genuína em relação a quem ouve. Sua ausência faz alguém competente e honesto ainda assim falhar em ser ouvido, porque a audiência sente falta de aliança.
  • Entimema: o mecanismo dedutivo de logos — um silogismo retórico que parte de probabilidades ou sinais e costuma omitir uma premissa óbvia demais para precisar ser dita; a audiência a completa sozinha.
  • Paradigma: o mecanismo indutivo de logos — um argumento por exemplo, seja um caso histórico real (mais verificável) ou um exemplo inventado, como comparação ou fábula (mais memorável, mas não é evidência).
  • Cânones da retórica: as cinco etapas de preparar e entregar um discurso — inventio, dispositio, elocutio, memoria e actio.
  • Inventio: o cânone de descobrir o que vale a pena dizer — os argumentos, evidências e exemplos disponíveis para o caso.
  • Dispositio: o cânone de ordenar as ideias já descobertas, de forma que a audiência consiga acompanhar e ser guiada até um pedido.
  • Elocutio: o cânone de escolher as palavras e o estilo que carregam o efeito pretendido, sem sacrificar clareza por ornamento.
  • Memoria: o cânone de internalizar o discurso de forma que a entrega não dependa de leitura literal.
  • Actio: o cânone de entregar o discurso ao vivo — voz, pausas, postura, gestos e contato visual.
  • Kairos: o momento oportuno — a leitura de quando e em que contexto um argumento específico deve ser dito para ter efeito.
  • Exórdio, narração, divisão, confirmação, refutação, peroração: as seis partes clássicas de um discurso, descritas por Cícero — do estabelecimento de credibilidade inicial até o fechamento que recapitula e pede uma decisão.
  • Falácia: um erro de raciocínio que parece válido, mas não sustenta a conclusão que afirma sustentar — reconhecê-la é parte de logos, tanto nos próprios argumentos quanto nos de terceiros.
  • Glossofobia: medo de falar em público. Está associado clinicamente ao transtorno de ansiedade social, mensurado pelo NIMH; não é falha pessoal, é fenômeno documentado e tratável.
  • Sofista: professor itinerante e pago de retórica e argumentação na Grécia do século V a.C. (ex.: Górgias, Protágoras). Associado historicamente ao ensino de argumentar qualquer lado de uma questão, o que gerou desconfiança ética sobre a disciplina.
  • Dissoi logoi: a prática, atribuída a Protágoras, de argumentar os dois lados opostos de uma mesma questão — raiz histórica da suspeita de que retórica serve para vencer, não para buscar a verdade.
  • Technē: termo grego para arte ou habilidade fundamentada em conhecimento genuíno do bem de quem é afetado por ela (ex.: medicina). Platão negava esse status à retórica; Aristóteles o reivindicou de volta.
  • Vir bonus dicendi peritus: fórmula latina de Quintiliano (atribuída a Catão) para o orador ideal — "um bom homem, hábil na fala". Caráter vem antes da técnica, não a substitui.